Criatividade: dom ou treino? O que a ciência e a prática mostram
Durante muito tempo, criatividade foi tratada como um tipo de presente misterioso. Algo que algumas pessoas recebiam ao nascer e outras não. O famoso “ele tem dom”.
Mas será mesmo?
A psicologia moderna, a neurociência e até estudos ligados ao esporte vêm mostrando algo diferente: criatividade é muito mais processo do que milagre.
O que a ciência diz
Pesquisas em neurociência indicam que a criatividade envolve a interação de diferentes redes cerebrais, principalmente a chamada Default Mode Network e a rede executiva. Em termos simples, o cérebro criativo não é um cérebro “especial”, mas um cérebro treinado para alternar entre imaginação e organização.
A psicóloga Carol Dweck, conhecida pelo conceito de mindset de crescimento, mostrou que quando a pessoa acredita que pode desenvolver uma habilidade, ela tende a evoluir mais. Isso vale para matemática, esportes e também para criatividade.
Outro pesquisador importante é Anders Ericsson, referência mundial em estudos sobre prática deliberada. Ele mostrou que excelência não surge do talento puro, mas de prática estruturada ao longo do tempo. A regra das 10 mil horas ficou popular por causa desses estudos, embora o próprio Ericsson tenha explicado que não é apenas quantidade, mas qualidade de treino.
A própria Harvard Business Review já publicou artigos defendendo que criatividade pode ser cultivada em ambientes organizacionais. Empresas como Google e IDEO investem em rotinas criativas estruturadas, não esperando apenas que alguém “tenha uma boa ideia”.
Ou seja, o cenário é claro: criatividade não é privilégio genético. É habilidade treinável.
E na prática?
Se criatividade fosse só dom, ninguém melhoraria.
Mas melhora.
No esporte isso é visível. Um jogador de futebol que aprende a improvisar em campo não nasceu sabendo driblar daquele jeito. Ele treinou coordenação, leitura de jogo, tomada de decisão rápida.
Um músico não improvisa jazz porque nasceu iluminado. Ele estudou harmonia, ritmo, escalas, repetiu exercícios até que o improviso se tornasse possível.
O mesmo acontece com desenho, escrita, culinária, terapia, liderança.
A criatividade aparece quando repertório encontra prática.
O olhar da psicologia
Para psicólogos e terapeutas, esse tema é ainda mais interessante.
A criatividade está diretamente ligada à flexibilidade cognitiva, capacidade de resolver problemas e adaptação emocional. Pessoas criativas tendem a encontrar mais de uma solução para um mesmo impasse. Isso é essencial em processos terapêuticos.
Atividades criativas estimulam tolerância à frustração, construção de identidade e expressão emocional. Não por acaso, abordagens como arteterapia utilizam o processo criativo como ferramenta de reorganização interna.
E aqui vale uma observação importante: criatividade não é só fazer arte. É a capacidade de gerar alternativas, reorganizar ideias e criar novos caminhos.
Então como se pratica criatividade?
Primeiro, criando rotina.
Criatividade não nasce do nada. Ela precisa de espaço. Horário. Repetição.
Algumas formas práticas:
- Exercícios de observação diária
- Prática constante de uma habilidade manual ou intelectual
- Exposição a diferentes referências culturais
- Registro de ideias, mesmo as aparentemente simples
- Participação em grupos de aprendizagem
Na música, treina-se ouvido.
Na criatividade, treina-se combinação.
E quanto mais repertório, maior a possibilidade de conexão.
Onde buscar ajuda?
Cursos estruturados ajudam porque oferecem sequência, orientação e feedback. Sozinho, muitas vezes a pessoa treina apenas o que já sabe.
Mentoria, grupos criativos, oficinas, práticas guiadas e ambientes que incentivem tentativa e erro são fundamentais.
Adultos costumam acreditar que “já passaram da idade”. A ciência mostra o contrário. O cérebro mantém plasticidade ao longo da vida. Pode não ser idêntica à infância, mas continua existindo. Aprender e criar continuam sendo possíveis.
Um ponto importante
Existe sim predisposição individual. Algumas pessoas têm maior facilidade inicial. Mas facilidade não é destino.
Talento sem treino enferruja. Treino consistente constrói habilidade.
Criatividade é menos um raio que cai do céu e mais uma musculatura que se fortalece.
E o desenho nisso tudo?
O desenho é uma das ferramentas mais completas para treinar criatividade porque envolve observação, coordenação motora, tomada de decisão, interpretação e solução visual de problemas.
Mas o princípio vale para qualquer área.
O importante é o compromisso com o processo.
Se você chegou até aqui talvez esteja se perguntando: “Então dá para desenvolver criatividade em qualquer idade?”
Sim, dá.
E ambientes estruturados fazem diferença.
Aqui em Guarulhos, a Graphis Escola de Desenho trabalha justamente com essa lógica: processo, prática e evolução real. Não é sobre dom. É sobre treino orientado, acompanhamento e construção gradual.
Se criatividade é habilidade, ela precisa de espaço para crescer.
E espaço certo faz toda diferença.
Referências e Estudos Citados
- DWECK, Carol S. Mindset: The New Psychology of Success. Random House, 2006.
- ERICSSON, K. Anders; KRAMPE, Ralf; TESCH-RÖMER, Clemens. “The Role of Deliberate Practice in the Acquisition of Expert Performance.” Psychological Review, 1993.
- ERICSSON, K. Anders; POOL, Robert. Peak: Secrets from the New Science of Expertise. Houghton Mifflin Harcourt, 2016.
- BEATY, Roger E. et al. “Creativity and the Default Network: A Functional Connectivity Analysis.” Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 2014.
- HARVARD BUSINESS REVIEW. “How to Build a Culture of Originality.” Adam Grant, 2016.
- DIETRICH, Arne. “The Cognitive Neuroscience of Creativity.” Psychonomic Bulletin & Review, 2004.
- GUILFORD, J. P. “Creativity.” American Psychologist, 1950.
- RUNCO, Mark A. Creativity: Theories and Themes. Academic Press, 2014.
Comentários
Postar um comentário
Agradecemos seu comentário, dicas e opiniões.