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| você já teve ideias no banho? |
Por que temos algumas das melhores ideias no banho?
Você passa meia hora tentando resolver um problema e nada.
Muda uma palavra, apaga, começa novamente, olha para a tela, levanta para tomar água, volta, tenta outra solução e continua exatamente no mesmo lugar.
Então você desiste.
Fecha o computador, larga o problema e vai tomar banho.
Cinco minutos depois, no meio do shampoo:
“É ISSO!”
A solução aparece praticamente pronta.
Agora surge um problema novo: você está molhado, não tem papel por perto e precisa passar os próximos minutos repetindo aquela ideia mentalmente para não esquecê-la antes de alcançar a toalha. 😂
Se isso já aconteceu com você, saiba que o chuveiro provavelmente não possui nenhum poder secreto. O interessante é o que estava acontecendo com a sua atenção justamente quando você parou de tentar encontrar a resposta.
Às vezes pensar demais atrapalha
Quando estamos tentando resolver alguma coisa difícil, é natural concentrarmos nossa atenção no problema. Isso é útil, claro, mas também pode fazer com que continuemos percorrendo os mesmos caminhos mentais.
Você tenta uma solução.
Não funciona.
Tenta outra muito parecida.
Também não funciona.
Depois de algum tempo, pode acontecer aquela sensação conhecida de estar andando em círculos. Quanto mais você força, mais parece repetir as mesmas ideias.
A psicologia da criatividade estuda há bastante tempo algo chamado efeito de incubação. Em termos simples, pesquisadores observaram que afastar-se temporariamente de um problema pode, em certas circunstâncias, ajudar quando voltamos a ele.
Em vez de continuar martelando conscientemente a mesma questão, fazemos outra coisa.
E é aí que o banho entra na história.
O que o banho tem de tão especial?
Tomar banho é uma atividade curiosa porque exige muito pouco planejamento para quem já fez isso milhares de vezes.
Você não precisa ficar pensando: “Agora vou abrir o shampoo. Em seguida colocarei uma pequena quantidade na mão. Depois levantarei o braço direito...”
Ainda bem. Um banho levaria duas horas.
Grande parte dessas ações é familiar e automática. Enquanto o corpo executa uma rotina conhecida, nossa atenção pode ficar menos presa àquilo que está imediatamente à nossa frente.
E a mente começa a passear.
Você pensa numa conversa de ontem, depois numa coisa que precisa fazer amanhã, lembra de uma música, associa aquilo com outra coisa e, de repente, aparece uma conexão que não estava surgindo quando você estava sentado diante do problema.
Pesquisadores chamam esse tipo de divagação espontânea da mente de mind-wandering.
Isso não significa que toda vez que nossa cabeça viaja estamos ficando mais criativos. Mas estudos sobre criatividade sugerem que momentos de atenção menos concentrada podem, em determinadas situações, favorecer associações entre ideias que antes pareciam distantes.
Em um estudo publicado em 2012 na revista Psychological Science, pesquisadores liderados por Benjamin Baird, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, investigaram justamente a relação entre períodos de atividades pouco exigentes, divagação mental e desempenho posterior em uma tarefa criativa.
Os participantes que passaram por uma atividade simples que favorecia maior divagação mental apresentaram melhora posterior em uma tarefa de criatividade em comparação com algumas das outras condições estudadas.
Isso não prova que ficar distraído transforma alguém em gênio criativo. Mas ajuda a explicar por que, algumas vezes, parar de perseguir uma ideia pode facilitar o encontro com ela depois.
E não precisa ser no banho
Essa é provavelmente a melhor parte.
Você não precisa aumentar a conta de água para ficar mais criativo. 😂
Situações semelhantes podem acontecer durante uma caminhada tranquila, lavando louça, arrumando a casa, cuidando das plantas ou realizando outra atividade familiar que não exija toda a nossa atenção.
O matemático francês Henri Poincaré, no início do século XX, já escrevia sobre experiências em que soluções para problemas matemáticos pareciam surgir depois de períodos em que ele havia deixado conscientemente o problema de lado. Seus relatos ajudaram a alimentar discussões posteriores sobre o papel da incubação no pensamento criativo.
Artistas, escritores, cientistas e pessoas que trabalham diariamente com criação também conhecem essa experiência de maneira bastante prática: há momentos em que insistir ajuda, e há momentos em que levantar da cadeira é exatamente o que estava faltando.
Isso vale inclusive para coisas muito comuns.
Você pode estar tentando escrever uma mensagem importante, encontrar um nome para um projeto, resolver um problema no trabalho, imaginar o final de uma história, desenvolver um desenho ou simplesmente descobrir como reorganizar uma sala.
Às vezes a solução aparece quando você está olhando diretamente para o problema.
Às vezes aparece quando está fazendo café.
Pausa não significa preguiça
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| Parar para pensar não é procastinar |
Talvez essa seja uma ideia especialmente interessante hoje, quando existe uma certa pressão para permanecermos produtivos o tempo inteiro.
Se estamos trabalhando, precisamos estar produzindo. Se paramos por dez minutos, parece que desperdiçamos dez minutos.
Mas criatividade nem sempre funciona dessa maneira.
Uma pausa pode fazer parte do próprio processo.
Isso não significa abandonar o trabalho e esperar que uma ideia extraordinária apareça magicamente enquanto você toma café. Antes da pausa normalmente existe alguma coisa importante: você precisa ter alimentado a cabeça com o problema.
É difícil ter uma solução para uma coisa sobre a qual nunca pensamos.
Primeiro pesquisamos, observamos, tentamos, desenhamos, escrevemos, erramos e acumulamos informações. Depois, quando chegamos naquele ponto em que estamos apenas repetindo os mesmos caminhos, talvez seja hora de deixar o problema quieto por alguns minutos.
É quase como dizer para a cabeça:
“Tá bom. Fica aí pensando nisso. Eu vou tomar banho.”
E aparentemente, algumas vezes, ela aceita o serviço. 😂
Talvez sua próxima ideia precise de um pouco de espaço
Da próxima vez que você estiver completamente travado diante de alguma coisa, experimente não insistir indefinidamente.
Levante.
Faça um café.
Dê uma pequena caminhada.
Arrume alguma coisa.
Tome banho.
Não como uma fórmula mágica para criatividade, mas simplesmente como uma mudança de atenção.
Talvez nada aconteça. Você volte e continue sem saber o que fazer.
Mas talvez, no meio de alguma atividade completamente comum, duas ideias que estavam separadas finalmente se encontrem.
E venha aquele:
“É isso!”
Só existe um detalhe importante.
Quando acontecer, anote.
Porque descobrir uma ideia genial no banho e esquecê-la antes de se secar talvez seja uma das pequenas tragédias criativas da humanidade. 😂
Para saber mais
BAIRD, Benjamin et al. Inspired by Distraction: Mind Wandering Facilitates Creative Incubation. Psychological Science, 2012.
SIO, Ut Na; ORMEROD, Thomas C. Does Incubation Enhance Problem Solving? A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin, 2009.
POINCARÉ, Henri. Science and Method. 1908.


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