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| Acontece com você também? |
Por que entramos em um cômodo e esquecemos o que fomos buscar?
Você está sentado no sofá quando lembra de alguma coisa que precisa pegar no quarto. Levanta com absoluta certeza do que vai fazer, atravessa a casa, entra no quarto e...
Para.
Olha para um lado.
Olha para o outro.
“O que eu vim buscar mesmo?”
Então você fica alguns segundos parado, olhando para os objetos ao redor como se algum deles fosse gentilmente dar uma pista. Nada acontece. A solução costuma ser voltar para onde estava e, misteriosamente, no meio do caminho a lembrança reaparece.
“Ah, o carregador!”
Se isso já aconteceu com você, fique tranquilo: esquecer momentaneamente o que pretendíamos fazer depois de mudar de ambiente é uma experiência conhecida e já despertou até a curiosidade de pesquisadores da memória.
E existe uma explicação muito mais interessante do que simplesmente dizer que estamos ficando esquecidos.
Talvez a porta tenha alguma coisa a ver com isso
Pesquisadores da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, realizaram experimentos para investigar justamente o que acontece com a memória quando mudamos de ambiente.
Em um estudo publicado em 2011, o psicólogo Gabriel Radvansky e seus colegas fizeram participantes transportar objetos entre diferentes ambientes, tanto em situações virtuais quanto reais. Os pesquisadores observaram que atravessar uma porta e entrar em outro ambiente podia estar associado a uma piora na lembrança de informações relacionadas àquilo que a pessoa estava fazendo.
Esse fenômeno acabou ficando conhecido popularmente como “doorway effect”, ou efeito da porta.
Mas calma.
Isso não significa que as portas estejam roubando nossas memórias. Caso contrário, precisaríamos começar a desconfiar seriamente da arquitetura. 😂
A explicação está mais relacionada à maneira como nosso cérebro organiza acontecimentos.
Nossa cabeça separa a vida em pequenos episódios
Nós não percebemos tudo o que acontece durante o dia como uma única sequência interminável.
Nosso cérebro organiza as experiências em acontecimentos e contextos. Estamos trabalhando no computador, depois vamos até a cozinha preparar um café, depois saímos para resolver alguma coisa, depois voltamos para casa.
Mudanças de ambiente podem funcionar como uma espécie de fronteira entre esses acontecimentos.
Quando você se levanta pensando “vou buscar meus óculos no quarto”, essa intenção está ligada ao contexto em que foi criada. Ao atravessar a casa e entrar em outro ambiente, aparecem novas informações: outros objetos, outra iluminação, outros sons e outras coisas disputando sua atenção.
Às vezes aquela pequena intenção que parecia tão óbvia alguns segundos antes perde espaço.
E lá está você no quarto, olhando para a cama e tentando negociar com o próprio cérebro:
“Vamos lá. Eu sei que você sabe.”
Talvez por isso voltar para o lugar onde tivemos a ideia algumas vezes ajude. O ambiente anterior contém pistas associadas ao pensamento original e pode facilitar sua recuperação.
É quase como voltar algumas páginas de um livro para descobrir onde perdemos o fio da história.
Mas isso acontece sempre que atravessamos uma porta?
Não.
E essa é uma parte importante da história.
Pesquisas posteriores mostraram que o chamado efeito da porta não aparece da mesma maneira em todas as situações. O fenômeno depende do contexto, da tarefa, da quantidade de informações que estamos tentando manter na cabeça e de outros fatores.
Um estudo publicado em 2021 por pesquisadores da Bond University, na Austrália, por exemplo, encontrou resultados mais sutis. A simples passagem por uma porta não fazia automaticamente as pessoas esquecerem. O efeito apareceu com mais facilidade quando a memória já estava sendo exigida por outras tarefas.
Isso combina bastante com a vida real.
Imagine que você esteja trabalhando enquanto recebe mensagens, pensa no almoço, lembra de uma conta que precisa pagar, escuta alguém falando e decide levantar para buscar uma caneta.
No meio do caminho chega uma notificação.
Você entra no outro cômodo.
Pronto.
A caneta perdeu a batalha.
Não necessariamente porque sua memória esteja ruim, mas porque nosso cérebro possui uma quantidade limitada de atenção disponível naquele momento.
O celular provavelmente não está ajudando
Hoje carregamos uma pequena máquina de interrupções no bolso.
Você se levanta para fazer alguma coisa e, durante os dez segundos necessários para atravessar a casa, chega uma mensagem. Você olha rapidamente. Depois vê outra notificação. Quando percebe, está no quarto lendo alguma coisa completamente diferente e não faz mais ideia do motivo que o levou até ali.
Não precisamos culpar o celular por todo esquecimento cotidiano, mas sabemos que dividir constantemente a atenção pode dificultar a manutenção de informações que precisamos usar logo em seguida.
Às vezes o problema não é que nossa memória apagou alguma coisa importante.
Talvez simplesmente estivéssemos tentando segurar coisas demais ao mesmo tempo.
E por que voltar para o lugar anterior às vezes funciona?
Essa talvez seja a parte mais curiosa.
Memórias são frequentemente recuperadas com a ajuda de pistas. Um lugar, um cheiro, uma música ou um objeto pode facilitar o acesso a algo que parecia momentaneamente esquecido.
É parecido com aquilo que acontece quando você sente determinado perfume e lembra de alguém, ou quando uma música antiga traz de volta uma época inteira da sua vida.
No caso do clássico “o que eu vim fazer aqui?”, o ambiente onde tivemos o pensamento pode funcionar como uma dessas pistas.
Você volta para a sala, olha para a mesa e...
“O carregador!”
A memória não estava literalmente escondida na sala esperando sua volta. O contexto simplesmente pode ajudar a reconstruir o caminho que levou àquela intenção.
Então isso é normal?
Pequenos esquecimentos desse tipo fazem parte da experiência cotidiana e, isoladamente, não significam que exista algum problema com a memória.
Estamos constantemente selecionando o que merece nossa atenção e deixando uma quantidade gigantesca de informações em segundo plano. Se nosso cérebro tratasse cada detalhe do dia como informação urgentíssima, provavelmente não conseguiríamos fazer mais nada.
É claro que esquecimentos frequentes, progressivos ou que começam a atrapalhar atividades importantes do cotidiano são outra situação e merecem avaliação profissional. Mas esquecer ocasionalmente por que você entrou na cozinha não é, por si só, motivo para diagnosticar coisa alguma.
Talvez seja apenas um lembrete divertido de que nossa memória não funciona como um computador perfeito.
Ela depende de atenção, contexto, pistas e daquilo que está acontecendo ao nosso redor.
E talvez possamos facilitar um pouco o trabalho dela.
Quando você se levantar para buscar alguma coisa, tente manter a intenção por alguns segundos em vez de aproveitar o caminho para olhar uma mensagem, responder alguém e pensar em outras cinco coisas.
Se não funcionar e você chegar ao quarto completamente perdido...
volte para a sala.
Quem sabe a lembrança esteja esperando por você no sofá. 😂
Para saber mais
RADVANSKY, Gabriel A.; KRAWCZYK, David C.; TAMPLIN, Andrea K. Walking through doorways causes forgetting: Further explorations. The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 2011.
LAWRENCE, Zachary et al. Pesquisa experimental sobre o efeito de atravessar portas na memória, BMC Psychology, 2021.

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