Por que musica traz lembranças antigas

 

Por que uma música consegue trazer de volta uma lembrança de muitos anos atrás?

Você está dirigindo, arrumando a casa, tomando um café ou simplesmente deixando alguma playlist tocar quando começa uma música que não escutava havia muitos anos.

Bastam alguns segundos.

De repente, você não lembra apenas da música. Lembra de um lugar. De uma pessoa. Da escola, de uma viagem, de uma casa onde já não mora ou de alguém que talvez nem faça mais parte da sua vida. Às vezes aparecem detalhes surpreendentes: o carro que você tinha, a roupa que costumava usar, uma festa, uma conversa ou até a sensação de como era ser você naquela época.

Por alguns instantes, você não está apenas ouvindo uma música de 1988.

Você está em 1988.

E talvez a coisa mais curiosa seja que você nem estava tentando se lembrar de nada.

Como uma música consegue fazer isso?


Quando uma música vira uma espécie de chave

Psicólogos e neurocientistas estudam há bastante tempo a relação entre música, emoção e memória. E o que eles vêm descobrindo ajuda a explicar por que determinadas canções parecem ter um acesso privilegiado a partes da nossa história.

O neurocientista e músico Daniel Levitin, autor do livro This Is Your Brain on Music, tornou bastante conhecida a discussão sobre como ouvir música envolve diferentes sistemas cerebrais relacionados à percepção, expectativa, emoção e memória. Uma música, portanto, não chega ao cérebro simplesmente como uma sequência de sons.

Ela pode estar associada ao lugar onde estávamos, às pessoas que estavam conosco e ao que sentíamos naquele momento.

É por isso que algumas músicas acabam funcionando como verdadeiras pistas de memória.

Pense numa viagem de férias em que determinada música tocava repetidamente no carro. Anos depois, basta ouvi-la novamente para que alguma coisa daquela viagem reapareça.

E não vem necessariamente em forma de uma história organizada.

Às vezes vem uma imagem.

Um cheiro.

Uma estrada.

Um rosto.

Uma sensação.

É quase como se o cérebro tivesse colocado a música e aquele pedaço da nossa vida dentro da mesma caixa. Anos depois, alguém abre a caixa pela música e encontra todo o resto lá dentro.


Por que as músicas da juventude parecem tão poderosas?

Existe outro fenômeno bastante interessante estudado pelos pesquisadores da memória.

Quando adultos são convidados a recordar acontecimentos de suas vidas, muitas vezes aparece uma concentração especialmente grande de lembranças da adolescência e do início da vida adulta. Os pesquisadores chamam isso de reminiscence bump, algo que poderíamos entender como uma espécie de pico de reminiscências.

E justamente nessa fase da vida costumamos viver uma quantidade enorme de acontecimentos importantes.

Primeiras amizades realmente marcantes, primeiros namoros, festas, escola, faculdade, primeiros empregos, descobertas, viagens sem os pais, mudanças de identidade e aquela maravilhosa época em que achávamos que já entendíamos perfeitamente como o mundo funcionava. 😂

A música acompanha tudo isso.

Por isso talvez você consiga esquecer o que almoçou anteontem, mas seja capaz de cantar quase inteira uma música que não ouvia desde os 17 anos.

Ela estava presente quando muita coisa estava acontecendo.

Pesquisadores como Petr Janata, da Universidade da Califórnia em Davis, estudaram justamente músicas capazes de despertar memórias autobiográficas. Em trabalhos usando neuroimagem, Janata encontrou relações entre músicas familiares, lembranças pessoais e atividade em regiões cerebrais envolvidas na integração de memória, emoção e informações sobre nós mesmos.

É uma maneira complicada de a ciência explicar uma coisa que muita gente já experimentou de forma muito simples:

“Essa música me leva para outro lugar.”


Mas por que algumas músicas não fazem absolutamente nada?

Essa talvez seja uma das partes mais bonitas da história.

Não é necessariamente a música considerada melhor, mais famosa ou mais sofisticada que fica ligada às nossas lembranças.

É aquela que estava lá.

Talvez exista uma música tecnicamente maravilhosa que você ouviu dezenas de vezes e que não desperte nenhuma lembrança especial.

Enquanto isso, começam três acordes de uma música meio brega de 1994 e pronto.

Seu cérebro abre o arquivo inteiro. 😂

Isso acontece porque a importância daquela música não está apenas nela. Está na história que você viveu enquanto ela tocava.

Uma canção pode lembrar seu primeiro namoro porque vocês a ouviam juntos. Outra pode lembrar sua infância porque sua mãe gostava dela. Uma abertura de desenho animado pode trazer de volta as manhãs de sábado. Uma música religiosa pode lembrar uma pessoa querida. Uma canção que tocava durante uma viagem pode devolver por alguns segundos a sensação daquele lugar.

Até músicas das quais nem gostávamos podem ganhar importância simplesmente porque estavam presentes numa época marcante.

O cérebro não parece muito preocupado em consultar nossa opinião musical antes de arquivar as lembranças.


Algumas músicas envelhecem junto com a gente

Talvez por isso nossa relação com determinadas canções também mude ao longo do tempo.

Uma música que aos 20 anos significava uma festa pode, aos 50, significar uma pessoa que estava naquela festa. Outra que parecia apenas romântica pode adquirir um significado completamente diferente depois de décadas de vida.

A música continua praticamente igual.

Nós é que mudamos.

E cada vez que voltamos a ela carregamos tudo o que aconteceu desde a última vez.

Talvez seja por isso que ouvir músicas antigas possa provocar uma sensação tão estranha. Existe alegria porque reencontramos uma parte da nossa história, mas às vezes existe também uma pequena melancolia porque sabemos que não podemos realmente voltar para aquele lugar.

Podemos ouvir novamente.

Podemos lembrar.

Mas não podemos entrar outra vez naquela tarde de 1987, naquela festa de 1999 ou naquela viagem de 2006.

E talvez nem fosse bom voltar. Nossa memória tem a conhecida habilidade de fazer uma pequena edição no filme depois de tantos anos. Algumas partes ficam mais bonitas, outras desaparecem e certas cenas ganham uma importância que talvez nem tivessem quando aconteceram.

Mesmo assim, a emoção pode ser muito real.


Talvez você tenha uma dessas músicas

Experimente pensar agora em uma música que marcou alguma fase da sua vida.

Não precisa ser sua música favorita.

Na verdade, talvez você nem a coloque voluntariamente para tocar hoje.

Mas imagine que ela comece inesperadamente no rádio, numa loja ou em uma festa.

Para onde ela levaria você?

Para uma escola?

Uma viagem?

Uma pessoa?

Uma casa onde você morou?

Uma época em que seus filhos eram pequenos?

Talvez seja isso que torna a música tão especial. Ela não serve apenas para preencher o silêncio. Algumas canções acabam se transformando, sem que percebamos, em pequenos marcadores da nossa própria história.

Ficam guardadas durante anos.

Até que alguém aperta o play.

E uma porta que estava fechada se abre novamente.

Por alguns minutos, pessoas, lugares e versões antigas de nós mesmos aparecem outra vez.

Depois a música termina.

A gente volta para o presente.

Mas talvez volte um pouquinho diferente, porque acabou de visitar um lugar onde nenhum carro, avião ou aplicativo consegue nos levar.

Uma lembrança.

E fica aqui o convite da Lili: escolha hoje uma música que você não escuta há muitos anos.

Coloque para tocar.

E veja quem aparece.

Talvez seja alguém.

Talvez seja algum lugar.

Ou talvez seja você mesmo, só que muitos anos atrás.

E olha só...

A música nem acabou e a matéria já terminou. 😂


Para saber mais

JANATA, Petr. The Neural Architecture of Music-Evoked Autobiographical Memories. Cerebral Cortex, 2009.

LEVITIN, Daniel J. This Is Your Brain on Music: The Science of a Human Obsession. Dutton, 2006.

RUBIN, David C.; RAHHAL, Tamara A.; POON, Leonard W. Things Learned in Early Adulthood Are Remembered Best. Memory & Cognition, 1998.

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